Os mercenários da mentira e perfídia, autênticos mitómanos, continuam a cruzada, para legitimar o oceano de sangue e horrores cometidos em 1977. Estamos em Maio. Aproximamo-nos do fatídico dia 27!
Por William Tonet
Quarenta e nove anos depois, os sobreviventes não devem continuar a resignar-se com retóricas assassinas, assentes na construção de estórias vampiras, quando se requer a manutenção e defesa da verdade com H de história real. Em 2026, o país é surpreendido com a estória de através de meios sofisticados de pesquisa cadavérica, técnicos, nominalmente identificados do regime, terem, em cinco anos, conseguido alcançar uma proeza: descoberta de uma, das mais de mil, valas comuns espalhadas pelo país de que se tem ciência desde 1977.
A informação apresentada, pelo ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Marcy Lopes, como fruto de rigor e sentido de reconciliação, ainda que embrulhada em papel celofane, não passa de abjecta sacanagem partidocrática.
A vala comum, “focalizada” no Cemitério do 14, com alegadas ossadas de 500 cidadãos inocentes (tratados por “perfis” humanos… assassinados, por Agostinho Neto), neste mês de Maio 2026, diante de selectiva e exclusiva plateia de barões do regime (muitos torturadores dos tempos e templo) e comunicação social pública (bajuladora e partidocrata), foi mais um autêntico show de pirotecnia.
Não comoveu, nem convenceu. Pelo contrário, demonstrou o carácter perverso dos “tudologos”, há muito descredibilizados, pela retórica forçada.
Muitos cidadãos listados, como estando na vala do 14, foram assassinados e enterrados noutras localidades: Moxico, Benguela, Huambo, Huíla, Malanje, Zaire, Cabinda… Outros estão vivos…
Todos, enterrados e sobreviventes não tiveram um julgamento justo. Mas o escriba mercenário, Artur Queirós, que tratou o consulado de José Eduardo dos Santos de “socialismo de sanzala”, até ser contratado, para idolatrar o mesmo e quem lhe paga mais, vem, neste Maio, falar de estar o Executivo de João Lourenço a favorecer os mártires do 27 de Maio de 1977, descobrindo alegadas valas.
Os sobreviventes querem verdade e justiça, não pirotecnia. Alude ainda a uma lista de agentes governamentais, que não nomina, só existente na sua poluída mente, ou que ele, com o grupo de Argel tenha assassinado. Os conotados com Nito Alves, não praticaram actos, sequer de legítima defesa. Muitos arrependem-se, hoje, profundamente!
Fala de tribunais militares. Deslavada mentira. A maioria dos assassinados e sobreviventes sequer conheceu um banco de réus, como prevê a Lei Constitucional de 1975, no art.º 36.º: ”Nenhum cidadão pode ser preso ou submetido a julgamento, senão nos termos da lei, sendo garantido a todos os arguidos o direito de defesa e o direito a assistência e patrocínio judiciário”.
Os conotados como fraccionistas, nunca tiveram, outro julgamento senão o da morte e tortura, pelos verdadeiros golpistas de Neto, que concederam prerrogativas especiais aos mercenários ocidentais, aplaudidos pelo viés complexado de Artur Queiroz.
Outra mentira de quem tem o cérebro ligado ao intestino grosso é quando faz referência a pena de morte, para justificar e branquear o genocídio de Neto e pares, ao fazer alusão a pena de morte.
A Lei Constitucional do MPLA de 1975 e demais leis criminais, não prevê a pena de morte, vide art.º 22.º da LC: “1 – O Estado respeita e protege a vida da pessoa humana.
2 – É proibida a pena de morte.”
Logo é mais uma deslavada e grosseira mentira do escriba mercenário, Artur Queiroz que precisa ter higiene intelectual para falar, sem se esconder por detrás de textos, com propriedade, sobre o 27 de Maio de 1977.
Estes imberbes, adversários da verdade e analfabetos ideológicos, no pedestal institucional, invertem os papéis, continuando a ofender a memória dos milhares assassinados (80.000 – oitenta mil), sem audição policial, judicial, justo processo legal e julgamento imparcial. Bem como a dos sobreviventes, a quem pretendem, por continuarem vivos, incutir a tese de benignidade do regime…
Verdadeiro engano! Os sobreviventes da maior tragédia, em África, cometida depois da Segunda Guerra Mundial, não devem favores a nenhum bárbaro da DISA e partidário, por mais que se apresentem como anjos, hoje com a bíblia debaixo do braço, como Carlos Jorge, Cajó, Pelinganga, Marta, Wadijimby, Pepetela, Manuel Rui entre outros…
O nosso poder de resistência e resiliência, continuam a ser a bússola norteadora, que impede de nos convertermos em monstros, como os algozes da DISA e Comissão de Lágrimas.
Os “Sobreviventes do 27 de Maio de 1977”, são guardiões do espírito do perdão, tolerância, mas nunca do esquecimento. A nossa vitalidade assenta na capacidade de, ano após ano, enfrentarmos com serenidade a mentira deslavada do regime. Temos a obrigatoriedade de a desmontar, com humildade, inteligência e conhecimento, destapando a realidade sobre os factos.
A forma ignóbil como muitos, foram torturados e sofreram horripilantes sevícias, nas fedorentas masmorras do regime, são inqualificáveis: – esquartejar de corpos de camaradas; coacção para relações sexuais; introdução de cano de armas, no ânus de presos; aperto com alicates dos testículos e dos lábios vaginais; fuzilamentos sumários diante de todos, prisão de crianças, como Joy, menino de 12 anos de idade, na Casa de Reclusão, em Luanda entre outras.
Verdadeiras atrocidades ao arrepio das mais elementares normas dos direitos humanos, da Convenção de Genebra, da Lei Constitucional de 1975 e demais leis criminais.
As centenas de milhares de informações baseadas em relatos de bajuladores, mercenários informativos, falsos e incompetentes peritos forenses, contribuem apenas para descredibilizar o próprio regime.
Apesar de uma clique do MPLA, ter plantado, programaticamente, na sociedade, sementes do terror, ódio, raiva, mentira, discriminação e medo, para a cada seara de insatisfação popular, os cidadãos serem impelidos a rememorar o passado tenebroso de Maio de 1977, esta estratégia não dará frutos sempre… Um dia, muitos dos “escravos mentais” rebentaram as grilhetas do medo, inaugurando as grandes avenidas da revolução, rumo à proclamação da independência imaterial, de que Angola tanto carece.
FALSA RECONCILIAÇÃO ESCONDE A VERDADE
No 27 de Maio de 1977, não houve dois lados conflituantes. Apenas um! O de Agostinho Neto e seus “tontons macoutes” da DISA.
Não houve nenhuma tentativa de golpe de Estado, por parte de Nito Alves. Evidências inexistem, por parte do regime monocrático, incapaz de ter localizado uma companhia organizada, seis granadas, 12 armas, uma deslocação para um órgão de soberania, um ataque frustrado. Uma instituição onde haja um furo de arma. Nada de provas materiais. Tudo retórica.
Mostrem, digam o nome de alguém afecto ou a mando de Nito Alves, que tenha entrado com arma na Rádio Nacional de Angola. Não existe! Mais, quando qualquer golpista ocupa um meio de comunicação social é para fazer apelos e mobilização para a sua causa.
Não é questionável não haver nenhum registo magnético, na RNA de Nito Alves, José Van Dúnem, Sita Valles, Monstro Imortal, etc. Estranho, muito estranho?
Mais, o famoso blindado tripulado por um mercenário cubano, que dispersou a população que estava defronte a RNA foi entregue, sem qualquer resistência na 9.ª Brigada por Tchichin (Francisco José), conotado como nitista…
A teoria de vencedor absoluto sempre prosperou na geografia mental dos dirigentes do MPLA.
Quando João Lourenço chegou ao poder (2017), gizou, tempos depois, um pedido de desculpas, mas colocando o 27 de Maio de 1977, no rolo de conflitos militares, repartindo, injustamente, responsabilidade aos dois lados. A história impõe o culto da verdade. É mister reconhecer, que só existia o grupo de Neto, que detinha o poder bélico.
Continuar a não reconhecer isso, frauda expectativas, de propósito para uma genuína reconciliação. O MPLA não pode chamar a si, o oceano da verdade, da ostentação, afronta e humilhação dos sobreviventes do 27 de Maio de 1977.
É preciso à bem do país, a inauguração de rotas de humildade, transparência, para uma verdadeira conciliação entre todas ex correntes do MPLA, uma vez de a crise de 77 ter sido um evento intra-muros…
João Lourenço tem de reformular a CIVICOP e dar-lhe credibilidade, com a integração de verdadeiros sobreviventes do 27 de Maio de 1977 e não bajuladores, que não agregam a verdade que o momento impõe.
ASSASSINATOS SELECTIVOS DA LITERACIA
O MPLA tem medo da liberdade. Da democracia. Da verdade! Por isso não reconhece, até hoje, por petulância, ter apenas existido um enredo, magistralmente, montado, para eliminar a literacia ideológica e académica de milhões de jovens (pretos, mulatos e brancos) autóctones, em 1975, desejosos em contribuir para o nascimento de um país diferente e mais robusto que a então província ultramarina de Angola, cujas sementes estavam lançadas.
Os fervorosos jovens das cidades, que em 1975, ingenuamente, aderiram ao MPLA, julgando-o um partido comprometido com a cidadania e causas sociais, tinham noção e conhecimento profundo sobre o “modus operandi” da administração pública colonial, mas não dos ditos revolucionários e libertadores, cuja iliteracia dirigente era significativa…
O desnível académico e cultural entre os das cidades e do maqui, era abismal. Enquanto os primeiros discutiam vários ideólogos e filósofos mundiais, fruto de apurada leitura, os maquisard’s, na maioria, ficavam-se por estórias da guerrilha.
Os ditos revolucionários não pensavam país, apenas ambicionavam obter as mordomias e o modo de vida dos colonos, passando eles a exibir uma corte de criados, motoristas e guarda costas.
Os jovens das cidades sonhavam com a implantação de uma República plural, democrática e com um robusto sistema de Educação, com padrões iguais aos das maiores universidades do mundo. A saúde deveria ser alavancada, com um sistema de cuidados preventivos e unidades de proximidade, aproveitando-se a rica flora, para a instalação de fábricas de medicamentos e fomento da medicina tradicional angolana e das ervanárias.
Um programa de desenvolvimento industrial deveria ser ampliado com o incremento da extração e transformação das matérias primas, exclusivamente, por empresas angolanas, uma vez o novo país, ter herdado um parque industrial e agro – pecuário já bem cotado no ranking mundial.
Temendo perder o protagonismo e poder, havendo eleições democratas internas, perder o controlo da máquina, Agostinho Neto, por instigação de Lúcio Lara, começa a engendrar com, a task force de eleição; Ndunduma, Pepetela, Iko Carreira, Rui Monteiro (da famigerada Comissão das Lágrimas), Ludy Kissassunda e Onambwe, um plano macabro, para eliminação da “intelligentsia” autóctone, com formação académica, profissional e experiência administrativa de gestão das cidades e do parque económico.
Para consumação era preciso encontrar um rosto: Nito Alves e, depois, um móbil: golpe de Estado, para exterminar, tudo que respirasse diferente…
É nessa esquina que o grupo dos argelinos (exilados em Argel, ao tempo da guerrilha, que “ganhava” em dólares) é chamado a pôr em marcha uma campanha de assassinato de carácter de Nito Alves e próximos. Criaram, no Jornal de Angola, primeiro com Costa Andrade Ndunduma, uma coluna diária: “Bater no Ferro Quente” e outra de Artur Pestana Pepetela, esgrimia nos textos, verdadeiro fel, como o dantesco, “Víbora de cabeça ao contrário”, uma premonição perfeita do que viria a acontecer. Ambos “assassinos de carácter” diabolizavam um membro do bureau político do comité central do MPLA, com a maior impunidade, contribuindo para o genocídio que se seguiu. Uma clara demonstração de o golpe ter sido orquestrado por Agostinho Neto aproveitando a ingenuidade de Nito Alves, que o idolatrava (salvou-o de morte política, em 1974, no Congresso de Lusaka, ganho por Júlio Chipenda), mas desconhecia o carácter perverso, complexado e ingrato do então presidente do MPLA.
A “task force” previu tudo, que viria a ocorrer… Era preciso sacrificar alguém, para criar comoção geral e coube a Onambwe e Ludy Kissassunda, orquestrar um plano sanguinário… Tony Laton, foi o operativo da DISA (assessor de Onambwe), que capitaneou os assassinatos de “Saydi Mingas (ministro das Finanças), Comandante Manuel Diniz de Oliveira Bula, Comandante Eugénio Nzaji (Chefe dos Serviços de Informação – DISA), na zona do Eixo Viário, atribuindo a macabra acção a Nito Alves, quando foi a DISA que os assassinou. O comandante Hélder Neto (Director da Prisão de São Paulo) incluído falsamente nesse grupo, suicidou-se no gabinete, disparando um tiro, na cabeça, no seu local de trabalho (Cadeia de São Paulo).
Criado este cenário, inflamada a informação e imputação a Nito Alves, José Van Dúnem, Sitta Valles e outros, seguiu-se, um autêntico vendaval de assassinatos, sob a ordem de um médico com uma fala profundamente assassina: ”não vamos perder tempo com julgamentos!” Com este toque seguiu-se ao genocídio, que ceifou a vida de 80 mil pessoas. A maioria enterrada em valas comuns, quintais, fazendas agrícolas, outros atirados aos rios, mares e precipícios, para não deixarem rastos. Não assumir essa verdade, dura mas que liberta é manter aberta a ferida na memória colectiva dos sobreviventes, a maioria expressamente excluída de direitos adquiridos, por contínua e indevida rotulagem pejorativa…

